Danielle Michelazzo
De todo o lixo domiciliar recolhido diariamente em Campinas, apenas 2% é aproveitado pelas 14 cooperativas de triagem e reciclagem distribuídas pela cidade. Em números mais detalhados significa dizer que, das cerca de 900 toneladas de dejetos orgânicos e inorgânicos no estado sólido que são descartados – chegando a passar de mil toneladas nos dias de pico –, somente 18 toneladas acabam sendo recicladas.
Há três anos trabalhando como guia de um dos Programas de Educação Ambiental da Prefeitura, o “Lixo Tour”, José Gonçalo dos Santos acredita que o mau aproveitamento dos resíduos domésticos resulta da falta de conscientização da população. “Nem as catástrofes globais estão sendo suficientes para despertar nas pessoas a necessidade e urgência de reciclar o lixo e cuidar do meio ambiente”, declara Gonçalo, que durante 29 anos foi motorista de veículos pesados do Departamento de Limpeza Urbana (DLU).
Ainda segundo ele, a desinformação acerca dos cuidados que fazem parte de todo o processo de reciclagem também influencia – e muito – para o número negativo. “Ações bastante simples realizadas em casa poderiam evitar que o lixo inorgânico fosse considerado como rejeito pelas cooperativas e, consequentemente, fosse levado para os aterros. Entre elas lavar garrafas e potes antes de descartá-los, porque quando isso não acontece, o cheiro forte impede o reaproveitamento do material”, exemplifica o guia.
Atuando na Cooperativa São Bernardo há mais de seis anos, Laura Novaes de Souza concorda com a realidade apontada por Santos. “Fazemos de tudo para reaproveitar o material que chega para a gente, mas a maioria do lixo rejeitamos e mandamos para o aterro por causa do cheiro forte. O custo que a gente tem para separar o material não compensa para pagar a hora do cooperado”, lamenta.
Responsável por receber e separar aproximadamente 600kg de lixo inorgânico por dia, o que representa cerca de 18 toneladas por mês, a cooperativa em que Laura trabalha revela, ainda, outra realidade: quanto mais nobre o bairro, pior a qualidade do material que chega para ser reciclado. “O que vem dos bairros chiques vem tudo contaminado, não existe saco que o lixo orgânico não venha misturado, inclusive, com coco de cachorro. Já nos bairros mais pobres a maioria do lixo vem todo separadinho”, compara a cooperada.
Orgulhosa do trabalho que realiza, Laura diz praticar em casa as dicas que aprendeu ao longo dos anos de atuação na cooperativa. “Aprendi muito aqui e aplico em casa tudo o que aprendo. E ainda tenho esperança de que vai chegar o dia em que as pessoas vão ver que alguma coisa tem que mudar”.