A necessidade de preservação da área ciliar

David da Silva Junior
Juliano da Rosa Arruda

Afonso Peche Filho: áreas ciliares protegem os mananciais Comumente se confunde os conceitos de mata ciliar e de área ciliar. A área ou ambiente ciliar abrange a mata, o solo, os animais e tudo que cerca e protege os mananciais. Segundo Afonso Peche Filho, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC) e coordenador do Projeto Jundiaí-Mirim, o simples replantio em áreas ciliares não garante sua integridade. “Plantar árvores nativas em áreas degradadas é como tirar uma pessoa de sua casa e colocá-la nas ruas, onde o ambiente te abriga, mas é hostil”. Há vezes em que primeiro, para recuperar o ambiente, é necessário plantar espécies que não são nativas dali, mas são o que o ambiente precisa para conseguir iniciar um processo de recuperação.

As áreas ciliares protegem os mananciais não só de dejetos sólidos, mas de todos os tipos de impureza. Um exemplo disso é a água das chuvas que além de chegar aos rios com força e por cima, o que pode provocar assoreamentos, leva consigo impurezas que capta no ar. “A água das chuvas é ácida e cabe ao solo tratá-la e garantir que abasteça os mananciais já limpa e com ph 7 (neutra)”, explica Peche. Além disso, a água filtrada pelo solo recebe no processo de filtragem minerais que só o solo sadio pode proporcionar.

Protegida por lei

Para proteger as encostas dos rios existem as Áreas de Proteção Permanente (APPs), que são os espaços de encosta com até 30 metros de raio dos mananciais. Esse conceito criado em legislação federal não é suficiente para proteger as áreas ciliares. Segundo Peche, a APP cobre um espaço de 30 metros entre os mananciais e as áreas não protegidas, mas a área ciliar pode ter 30, 40 ou 50 metros, ou seja, parte do ambiente normalmente fica desprotegido, mesmo quando respeitada a legislação.

Ação do homem

A ação do homem pode danificar o ambiente ciliar de duas formas: enfraquecendo os seres vivos e a sanidade do solo; e devastando o que ali estava antes de sua intervenção. À primeira área chama-se conceitualmente de “depauperada”, à segunda chama-se degrada. Para cada tipo de área existe uma intervenção técnica específica.

Na área depauperada, a intervenção é feita através da ação de técnicos no sentido de aumentar a sanidade do solo e das plantas que ali estão, recuperando completamente o ambiente. Já na área degrada, é necessária uma intervenção que artificialize a área ciliar de acordo com cada caso apurado em prévia análise técnica. Tudo isso depende da compreensão de todos os fatores que cercam a área.

Normalmente é necessário aumentar o nível de absorção de água pelo solo e até plantar animais e insetos no ambiente, mas não de maneira arbitrária. “Por exemplo, para plantar um passarinho no ambiente, nós plantamos uma árvore frutífera,a presença do pássaro leva para o ambiente seres que precisam do pássaro para viver e com isso se reconstrói pouco a pouco o ambiente ciliar”, explica Peche, que completa, “assim com o tempo nós entendemos as relações que se dão nas encostas dos mananciais”.

Como preservar

Ao poder público cabe, de posse de resultados de análises, pensar em políticas macro, que unam as secretarias em torno de um só projeto, a recuperação das áreas ciliares. Segundo Peche, um grande problema do poder público é não ver o problema como um todo, entregando a cada secretaria um trabalho específico que normalmente não “casam entre si”. A intervenção do poder público só tem bons resultados se acompanhada da reeducação da população que com maus costumes é grande responsável pela poluição de áreas ciliares e, por conseqüência, de mananciais.

Um exemplo de intervenção pública que vem dando certo é o Projeto Jundiaí-Mirim, uma parceria entre o Instituto Agronômico (IAC) e a prefeitura de Jundiaí, interior de São Paulo.

Afonso Peche Filho explica como funciona o projeto: